terça-feira, 10 de julho de 2012

Podemos confiar no Novo Testamento?



Nas próprias epístolas temos as evidências de que é nelas que encontramos a autoridade apostólica, portanto creio ser esta a evidência de que estamos em terreno seguro. As epístolas circulavam entre as assembleias levando nelas a autoridade dos apóstolos e é nelas que os próprios apóstolos indicam que devemos buscar a doutrina.


2Pe 3:15-16 "E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; Falando disto, como em TODAS AS SUAS EPÍSTOLAS, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, eIGUALMENTE AS OUTRAS ESCRITURAS, para sua própria perdição.

Pedro iguala os escritos de Paulo às "outras escrituras", ou seja, ao Antigo Testamento e às outras epístolas dos apóstolos que andaram com Jesus (e cujas epístolas foram pré-autenticadas por Jesus, como explicarei adiante).

Col_4:16 E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a vós também. 

Confiar na tradição, como faz o catolicismo, nos deixaria à mercê de interpretações para justificá-las ou não à luz das epístolas. Para resolver tal dilema o catolicismo simplesmente determinou que em caso de discrepância entre as Escrituras e a tradição fica valendo a tradição. E deu no que deu...

Acima de tudo devemos ter em mente que é o próprio Deus quem tem interesse em preservar a doutrina que os apóstolos receberam do Espírito Santo, e isto Deus faz inclusive impedindo que tenhamos acesso a algumas epístolas que os apóstolos escreveram, mas cujo teor o Espírito Santo achou por bem não chegar até nós. Não temos hoje, por exemplo, a epístola a Laodicéia da qual o apóstolo Paulo fala no versículo acima. E também não temos a epístola de Paulo aos Coríntios escrita antes da que chamamos de "Primeira aos Coríntios", a qual ele menciona em 1 Co 5:9.

Mas não é apenas no testemunho dos apóstolos que podemos nos basear para entender a inspiração divina que têm os seus escritos. Jesus pré-autenticou, por assim dizer, os ensinos que seriam dados através dos apóstolos depois de sua partida:

Joã 14:26 Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará [aos apóstolos] todas as coisas, e vos fará lembrar [aos apóstolos] de tudo quanto vos tenho dito. 

Alguns alegam que esta passagem foi dita aos discípulos de Cristo de uma maneira geral, e portanto estaríamos incluídos nesta mesma promessa. Mas não é assim. Como poderíamos nós, que nascemos 2 mil anos depois, achar que o Espírito nos "lembraria" de tudo o que o Senhor disse se nem mesmo estávamos lá? A passagem abaixo também tem este caráter exclusivo, pois foi o Espírito quem disse aos apóstolos, palavra por palavra, aquilo que deviam escrever. Daí a inspiração verbal das Escrituras.

Joã 16:13 Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará [aos apóstolos] em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá [aos apóstolos] tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará [aos apóstolos] o que há de vir. 

1Co 2:13 As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as [palavras] que o Espírito Santo ensina,

O Espírito Santo iria, não apenas LEMBRAR os apóstolos das palavras de Jesus, mas iria ENSINAR a eles todas as coisas e GUIÁ-LOS em toda a verdade, como canais vindos diretamente dos céus, revelando o ensino para o presente e para o porvir. Estas são "as coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem", ou seja, não são tradições, costumes ou fábulas humanas, mas a expressa Palavra de Deus vinda dos céus.

2Pe_1:16 Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade. 

Tudo isso o Senhor prometeu que revelaria pelo Espírito aos apóstolos, portanto não cremos "na memória histórica" dos apóstolos ou na "tradição dos pais", como chamam os católicos, mas na revelação da Palavra de Deus pelo Espírito Santo.

O argumento muito usado pelos católicos de que foi a igreja católica que decidiu o que faria ou não parte do cânon do Novo Testamento é ridículo.

Primeiro, porque não existia "igreja católica" na época. Naquela época só existia a igreja. Chamá-la de "igreja católica", como se faz hoje para distinguir aquela que é comandada de Roma das milhares de denominações cristãs, faria tanto sentido quanto chamar a guerra de 1914-1918 de "Primeira Guerra Mundial". Este título só foi usado após ocorrer outra guerra mundial (nos livros e jornais anteriores aos anos 40 ela é chamada simplesmente de Grande Guerra).

Segundo, porque a formação do cânon pelos cristãos dos primeiros séculos foi simplesmente atestar de uma maneira formal quais eram os textos que nos séculos anteriores circulavam pelas assembleias locais e eram reconhecidos como a Palavra de Deus. E por que os cristãos da época fizeram isso? Justamente para evitar que lendas e tradições fossem tomadas como sendo a Palavra de Deus, o que já estava acontecendo por alguns hereges. Portanto, as epístolas são a Palavra de Deus revelada aos apóstolos. A tradição é a interpretação que homens deram a essas epístolas à luz da época em que viveram. Devemos receber a primeira como a Palavra de Deus e refutar a segunda como tendo igual status.

Paulo explica como se cumpriu a promessa que o Senhor deu de que o Espírito revelaria a Palavra de Deus aos apóstolos em uma passagem que às vezes lemos sem identificar que Paulo está falando ali dos apóstolos, e não dos crentes em geral. Esta passagem deve ser lida como a concretização da promessa que o Senhor fez AOS APÓSTOLOS, os quais, pelo Espírito, seriam lembrados de todas as coisas que o Senhor lhes tinha dito, e vou inserir meus comentários para deixá-la mais clara:

1Co 2:9-11  Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou [a nós, os apóstolos] pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.

Em outra passagem Paulo autentica seus próprios escritos explicando que não são ensinos de homens, ou seja, não são tradições humanas. Mais uma vez entendemos o papel que tiveram os apóstolos como canais exclusivos da revelação de Deus vinda dos céus.

Gál 1:11-12 Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo.

Os cristãos daquela época recebiam seus escritos como a Palavra de Deus, e não como sabedoria humana ou meras tradições.

1Ts 2:13 Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes. 

1Co 14:37 Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor. 

Tudo isso não apenas nos autoriza a encarar o Novo Testamento como a Palavra de Deus revelada aos apóstolos, como deixa claro o erro dos teólogos moderninhos que insistem em refutar os escritos de Paulo como se fossem meras opiniões de um solteirão machista. Para esses fica valendo a descrição que Pedro lhes dá em sua segunda epístola 3:16:

"indoutos e inconstantes" (ARF), ou como está em outras versões, "espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos" (Ave Maria), "homens sem instrução e vacilantes" (CNBB), "ignorantes e instáveis" (NVI). Quem quer que negue a autenticidade das epístolas de Paulo como a Palavra de Deus pode adotar para si qualquer um desses adjetivos.E vergonhoso a falta de respeito que muitos pastores tem pelo Apostolo Paulo.

Devemos ter tudo em comum como os primeiros cristaos?



É normal que alguns cristãos, principalmente recém convertidos, se apaixonem pela ideia de venderem tudo e distribuírem entre os mais necessitados. Eu mesmo, quando vi o filme "Irmão Sol, Irmã Lua", uma história romanceada da vida de São Francisco de Assis, acreditei que viver daquele jeito seria possível. Mas o próprio filme mostrava que o clero da época só acatou a ideia daqueles jovens despojados porque atraía mais fiéis para as missas, como faz o clero católico romano e também protestante em nossos dias ao fazerem vista grossa a padres, pastores e cantores "pop stars".

A ideia de dar tudo para os pobres é muito bonita em tese, mas na prática devemos agir com sabedoria. Distribua todos os seus bens com os pobres e em um mês estarão todos pobres de novo, inclusive você.  Quando escutar algum pregador constrangendo seus ouvintes a adotarem uma vida despojada, primeiro é bom verificar a vida que esse pregador leva para ver se ele pratica o que prega.

Mas, ainda que pratique, o argumento de que em Atos os cristãos vendiam tudo o que tinham e dividiam entre todos não procede e mostra um desconhecimento total do fato de o livro de Atos não ser um livro de doutrina, mas uma narrativa de uma época de transição entre o judaísmo e o cristianismo. Em Atos dos Apóstolos vemos exatamente isto, os atos dos apóstolos (e dos primeiros cristãos) e às vezes ali são mostrados atos errados também.

Analisando especificamente o ato de vender tudo e distribuir entre outras pessoas, primeiro vemos que era entre os irmãos que eles compartilhavam o que tinham, e não com o mundo pagão em geral. Segundo, aquilo era uma ação espontânea e não uma ordenança ou obrigação. O próprio apóstolo Pedro deixa bem claro que ninguém era obrigado a vender o que tinha para repartir com os irmãos. Ananias, que foi morto não por ter retido parte do lucro obtido com a venda de seu imóvel, mas por ter mentido ao Espírito Santo, poderia fazer o que quisesse com seus bens, inclusive conservá-los para si. É o que Pedro explica a ele:

Ats 5:3-4 Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? (outra versão diz: "Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia?")


A decisão dos primeiros cristãos de vender tudo e repartir com os irmãos acontecia em um momento em que a igreja vivia seu primeiro amor e desfrutava do poder de Deus agindo sem os impedimentos que hoje temos. Quais? O fato dos cristãos estarem divididos em milhares de seitas e o mal ter se infiltrado em seu meio. Hoje qualquer um se diz "irmão", até o pregador da TV que só sabe pedir dinheiro. Você venderia tudo o que tem para dar ao pregador e ele comprar outro helicóptero ou reformar sua mansão?

Um olhar cuidadoso verá que mesmo no livro de Atos as condições iam mudando e se adaptando conforme o mal começava a se introduzir na igreja. Eles começam vivendo em comunidade, tendo tudo em comum e vendendo e distribuindo entre si seus bens:

Ats 2:44-45 E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.

Então vemos em Atos 4 que já não dividiam mais entre si, mas passaram a trazer o que tinham aos apóstolos, para estes fazerem a distribuição. Lembrando mais uma vez que tudo acontecia dentro do círculo dos irmãos, e não era uma campanha para dividir tudo com todos os pobres dentre os pagãos. Entregue hoje seus bens as pobres necessitados do Taliban no Afeganistão e eles venderão tudo para comprar armas.

Ats 4:32-35 E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns... Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.

Já no capítulo seguinte vemos o mal agindo e Ananias e Safira fazendo o que obviamente acontece com todo coração humano: querer parecer mais do que é ou que faz mais do que realmente fez. Acaso não foi assim que terminaram as boas intenções de algumas organizações beneficentes mais antigas? Há muitas que hoje promovem jantares para homenagear os que contribuem, e às vezes esses eventos custam mais caro do que aquilo que vai efetivamente chegar nas mãos dos necessitados. Algumas ONGs gastam mais dinheiro com funções administrativas e de propaganda do que com os necessitados.

Mas vamos ver o que ocorre após o conhecido episódio de Ananias e Safira, que foi resolvido de forma radical com a morte dos que mentiram ao Espírito Santo. Em um período de grande poder no início da igreja, com os apóstolos fazendo sinais e milagres, havia também uma grande responsabilidade e uma grande perda quando esta falhasse. Não é à toa que os de fora já estavam relutantes em querer fazer parte daquela comunidade onde as consequências da mentira e dissimulação eram tratadas de maneira tão severa: com a morte dos mentirosos. Já pensou se a igreja hoje vivesse nesse mesmo poder?

Ats 5:11-13 E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas. E muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos.... Dos outros, porém, ninguém ousava ajuntar-se a eles; mas o povo tinha-os em grande estima.

A passagem seguinte deixa muito claro que tudo aquilo era um processo: primeiro eles dividiam tudo entre si, depois passaram a entregar aos apóstolos para que estes determinassem como dividir, e agora vemos que homens idôneos são designados especialmente para a tarefa, deixando assim os apóstolos livres para se dedicarem à Palavra. Isto porque os cristãos já não estavam na mesma disposição do princípio e agora agiam de forma egoísta, como vemos na passagem a seguir:

Ats 6:1 Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério cotidiano. 

Todos os que faziam parte da igreja eram judeus ou prosélitos convertidos a Cristo, mas alguns eram judeus helenistas, isto é, vindos de uma cultura grega. Estes estavam sendo prejudicados na distribuição dos recursos, o que faz os apóstolos a tomarem a providência de escolher 7 homens íntegros para cuidarem disso.

Ats 6:2-4 E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.

Se você reparar na continuação da passagem todos eles têm nomes gregos: Estêvão, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Parmenas e Nicolau. Mesmo em situações de falha do homem Deus age em graça.

Isso tudo deixa claro que no livro de Atos nem sempre encontramos as coisas já bem estabelecidas, mas ocorria ali um processo. Hoje, quando não temos mais apóstolos e nem as condições de poder e unidade que existiam no princípio, não podemos ser ingênuos achando ser possível repetir o modo de vida da igreja primitiva.

Fazer o bem e administrar para o mais necessitados é algo que todo cristão deve fazer individualmente em seu exercício com o Senhor, e não algo que devemos impor sobre as pessoas. É um erro também acreditar que pelo exercício do altruísmo os cristãos criarão um mundo melhor e mais justo, pois a Bíblia deixa bem claro que não será assim sem a intervenção direta do Senhor em sua vinda para reinar.

Algumas religiões fundamentalistas acreditam que será pelo esforço dos cristãos em transformarem as condições do mundo em mais propícias que Cristo virá reinar, mas isto é acreditar que o homem possa ter sucesso em seus empreendimentos e que os cristãos conquistar o mundo inteiro para Cristo. O "ide por todo o mundo" levando o evangelho é muito bom e louvável, mas isto não significa que todo o mundo irá se converter a Cristo.

Aliás, o "ide" foi ordenado aos apóstolos ainda em sua condição de judeus, e não de igreja de Deus. O remanescente judeu que se converterá após o arrebatamento da igreja continuará esse trabalho nos anos de tribulação que se seguirão, e até anjos estarão empenhados em levar o "evangelho eterno" aos quatro cantos do mundo. 

Como devem ser os que ministram?



É importante frisar que 1 Timóteo 3 não está falando de requisitos ou qualificação de quem ministra a Palavra nas reuniões, ainda que as características ali sejam aconselháveis. Em 1 Timóteo 3 Paulo fala dos que zelam pelo rebanho (bispos, anciãos ou presbíteros).

Nas reuniões da assembleia são os dons que são manifestos, não os ofícios (como bispos, anciãos ou presbíteros). As religiões elegeram seus próprios bispos ou presbíteros e os transformaram em dirigentes ou ministros da Palavra em suas reuniões, criando assim uma espécie de clero com exclusividade no ministério da Palavra. Mas ainda que um bispo ou presbítero tivesse também um dom de ministrar a Palavra, o ministério nas reuniões não está restrito a eles, mas é aberto aos dons. É por isso que em 1 Co 14:29-31 diz "todos",  que esses "todos" precisam ser antes conhecidos e reconhecidos pelos irmãos como pessoas que professam a sã doutrina.

1Co 14:29-31 E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas, se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. Porque TODOS podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e TODOS sejam consolados.

Em Atos e nas epístolas vemos que a função dos bispos ou anciãos era de zelar pela assembleia local. Sua esfera de ação era local (e não universal como eram os dons de profeta, apóstolo, evangelista, pastor e mestre ou doutor) e um bispo não precisava ter necessariamente um dom relacionado ao ministério da Palavra. O bispo ou presbítero precisava ser apto para ensinar, mas isso não significava que precisava fazê-lo em público, podendo ser um irmão sábio para admoestar pessoas individualmente ou escrevendo cartas de exortação àqueles que estivessem se desviando, consolar os fracos e encorajar os irmãos de um modo geral.

Sua função era o que podemos chamar de administrativa-espiritual e de vigilância e cuidado do rebanho. Os bispos (presbíteros ou anciãos) eram também eleitos pelos apóstolos ou por indicação direta deles (não temos mais apóstolos hoje) e eram eleitos "de cidade em cidade", como na ordem que Paulo deu expressamente a Tito (e não a mim nem a você):

Tit_1:5 Por esta causa [eu, Paulo] te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te [a ti, Tito] mandei.

Hoje não temos mais apóstolos para eleger bispos ou presbíteros ou anciãos (os nomes significam a mesma coisa), mas continuamos tendo o Espírito Santo para escolher aqueles que ele quer para que tenham zelo sobre o rebanho de Deus. Podem ser irmãos reconhecidos pela assembleia, mas não são eleitos, ordenados ou denominados como tais.

Ats 20:28 Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.

Num estado de divisão em que hoje vivemos seria até pretensão chamar oficialmente "bispos" ou "presbíteros" homens cuja ação está limitada a apenas uma pequena parcela de todos os cristãos que vivem numa cidade. No início os bispos ou presbíteros eram eleitos pelos apóstolos ou por seus comissionados para assumirem a responsabilidade sobre TODOS os santos em uma determinada cidade, e não apenas sobre um grupo deles. E por ser um ofício local, o bispo da assembleia em uma cidade não era bispo em outra assembleia. Sua "jurisdição", se podemos chamar assim, era exclusivamente dentro de sua assembleia.

Resumindo, não existe hoje uma ordenação de bispos (presbíteros ou anciãos). E nunca -- sim, NUNCA -- existiu uma ordenação de dons como evangelistas, pastores e mestres, já que estes são designados diretamente pelo Senhor ressuscitado a partir dos céus. Se alguém ordenar você "evangelista" ou "pastor" ou "mestre" tal ordenação feita por homens não tem qualquer efeito se você não tiver um desses dons. E se você tiver recebido de Cristo qualquer um desses dons, nenhum homem poderá dizer o contrário.

Efs 4:8, 11-12  Por isso diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, E deu dons aos homens E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;

Ao contrário dos bispos, cuja atuação era local, os dons dados por Cristo são universais. Assim como um profeta ou apóstolo (os que lançaram os fundamentos da igreja e não estão mais entre nós) tinha uma esfera de atuação universal, assim também são os evangelistas, pastores e mestres, que foram dados para "o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo". Ou seja, um bispo de Éfeso só era bispo em Éfeso, mas um evangelista, pastor ou mestre que morasse em Éfeso era evangelista, pastor ou mestre onde quer que estivesse.

Por isso é tão fora de ordem alguém dizer que é pastor da igreja tal na cidade tal, a menos que esteja se referindo ao ofício de bispo ou presbítero. Mas neste caso não haveria apenas um, pois a função aparece sempre no plural, e jamais ele seria visto dirigindo as reuniões ou tendo a exclusividade do ministério da Palavra. Tal função (o pastor singular que é ordenado para dirigir uma congregação) não existe na doutrina dos apóstolos.

Não existem intermediários ou intermediação (seja de homens ou escolas de teologia) na dispensação que Cristo faz dos dons do Espírito. Pode apenas existir um reconhecimento dos irmãos, que percebem como Deus usa aquele irmão (que foi o caso da imposição de mãos sobre Timóteo em 1 Tm 4:14), mas nunca uma ordenação ou oficialização do dom. Portanto, o que eu estou dizendo tem a ver apenas com o cuidado que a assembleia deve ter com os que ministram (os dons), pois ainda que uma pessoa tenha um dom para o ministério da Palavra, ela pode estar contaminada com erros e más doutrinas, as quais a assembleia tem o dever de julgar e o poder de impedir que sejam trazidas nas reuniões.

Quanto aos diáconos,  eles tinham o papel de cuidar dos aspectos administrativos materiais da assembleia, enquanto os bispos cuidavam dos aspectos administrativos espirituais. Numa linguagem prática, enquanto os bispos podiam ser aqueles que detectassem necessidades espirituais, os diáconos deviam estar atentos às necessidades materiais da assembleia. Estes seriam os responsáveis por servir os necessitados e atender tudo o que diz respeito ao conforto material da assembleia. Entendo que, assim como no caso dos bispos, hoje seria pretensioso demais nomear diáconos, mas não deixamos de tê-los por reconhecer irmãos que são mais preocupados e ocupados com essas tarefas do que outros. Certamente é o mesmo Espírito que coloca no coração de uns o zelo pelo conforto espiritual da assembleia, e de outros o zelo pelo conforto material.

domingo, 24 de junho de 2012

Porque Pilatos ficou surpreso?

 Minha dúvida estáva  em Marcos 15:44, onde diz que "Pilatos ficou surpreso ao ouvir que ele já tinha morrido. Chamando o centurião, perguntou-lhe se Jesus já tinha morrido." Provavelmente Pilatos achava que Jesus ainda estivesse vivo, pois a morte na cruz era um longo suplício. Foi por isso que para apressá-la e terminar com tudo antes que o sábado começasse a vigorar (no início da noite da sexta-feira, segundo o costume judaico) os soldados quebraram as pernas dos condenados.



O evangelho de João dá detalhes da sequência de eventos:

Joã 19:30-34  E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados. Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.

Um ser humano comum ainda estaria vivo quando José de Arimateia foi pedir a Pilatos permissão para tirar Jesus da cruz. Acontece que Jesus não era um ser humano comum. Ele era Deus e Homem, nascido de uma virgem por concepção do Espírito Santo. Ele não trazia em si o pecado de Adão como todos nós trazemos de nascença. Jesus foi o único Homem sem pecado que já existiu. Veja abaixo a universalidade do pecado:

Rom 5:12 Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.

Desse "todos" você pode excluir Jesus em virtude de sua encarnação não ter seguido os padrões normais. Além disso, em Hebreus é afirmado que ele não tinha pecado. Nele não havia nem a possibilidade de pecar, nem de morrer, o que é consequência do pecado:

Heb_4:15 Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.

Este sem pecado não significa "sem ter cometido pecado", mas sem o pecado, a raiz do mal que todos trazemos em nós. E não poderia ser diferente, pois todos os sacrifícios no Antigo Testamento, que eram um tipo de Cristo, precisavam ser de animais perfeitos e sem mancha. Por isso, o "Cordeiro de Deus" não podia ter em si mesmo o pecado, pois se tivesse não poderia servir de sacrifício pelos pecados alheios; ele próprio iria precisar de um Salvador que morresse por si, caso fosse um pecador como todo ser humano.

Por ter nascido sem pecado, Jesus também não podia pecar. Não apenas por ele ter uma natureza isenta da herança deixada por Adão, mas também porque estamos falando de alguém que é Deus e Homem. Como poderia Deus pecar? Impossível!

Voltando ao versículo em Rm 5:12 você verá que a morte é uma consequência do pecado. Não fica difícil perceber que alguém que tenha nascido sem pecado esteja também isento da morte. Jesus não podia morrer de causas naturais e nem ser morto por um agente externo. Ele podia crescer e atingir a idade adulta, como aconteceu, mas não poderia envelhecer e morrer. Isto equivale dizer que se Jesus não tivesse dado sua vida na cruz ele estaria ainda andando por este mundo na forma de um Homem adulto. Os versículos abaixo são muito significativos:

Joã_12:24 Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.

Joã 10:17-20  Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai. Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras. E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora de si; por que o ouvis?

Se Jesus não tivesse entregado sua vida e morrido, ele ficaria só. Ninguém mais iria para o céu, ninguém mais poderia ressuscitar. Mas creio que também significa que ele continuaria sendo um Homem, imune à doença e à morte, que são consequências do pecado (o qual ele não tinha). Não é de admirar que os judeus tenham ficado irados com tal declaração e o consideraram louco ou possesso de demônio.

Ninguém iria tirar a vida de Jesus, mas ele a entregaria fazendo uso de um poder sobre-humano. Além de Jesus, ninguém jamais teve o poder de entregar a própria vida. Um ser humano comum pode ser morto por algo ou alguém, mas não é capaz de entregar o espírito como Jesus fez na cruz. Até mesmo o suicida precisa de algum instrumento ou meio para tirar a própria vida, mas ele não pode entregar a própria vida, devolvê-la a Deus que a deu. Este poder Jesus tinha e foi o que fez na cruz.

Joã 19:30 E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

Outra evidência da imortalidade de Jesus pela ausência do pecado pode ser vista nesta passagem:

Joã 1:4 Nele estava a vida

Estamos falando de uma Pessoa que não recebeu vida, mas em quem a vida era parte intrínseca quando andou aqui.

Resumindo, Jesus é o Filho de Deus que veio ao mundo sem pecado e, portanto, sem a possibilidade de pecar. Por ser sem pecado e ser Deus, Jesus também não estava sujeito à morte, apesar de estar em um corpo que podia ser ferido, sentir dor, fome, sede, frio etc. Só não podia ser morto por algum agente exterior, e por isso teria permanecido um Homem em idade adulta indefinidamente, caso não tivesse ido à cruz.

Mas este é um pensamento igualmente impossível e surreal, pois se não fosse pela cruz ele nem sequer teria vindo ao mundo, portanto estamos falando aqui de uma possibilidade que nunca se realizaria.

Embora ele nunca tenha feito qualquer milagre para si mesmo, fica evidente que aquele que era capaz de restaurar a vista ao cego, curar leprosos e aleijados, e ressuscitar mortos poderia muito bem curar suas próprias feridas. Mas não fez isso quando foi chicoteado, esmurrado e teve o couro cabeludo rasgado pela coroa de espinhos, e as mãos e pés pregados na cruz.

Depois de cumprir tudo o que dele estava previsto pelos profetas, sofrendo durante 3 horas nas mãos dos homens e 3 horas nas mãos de Deus, Jesus entregou sua vida. Simplesmente morreu, um verbo que nenhum outro homem seria capaz de conjugar no presente e na primeira pessoa. Nem eu, nem você, podemos simplesmente decidir parar de viver e isto ser suficiente para nossas funções vitais serem imediatamente interrompidas.

Por ter morrido assim de um modo tão sobrenatural os soldados não quebraram as pernas de Jesus como fizeram com os outros soldados, para que perdessem a capacidade de funcionamento do diafragma e morressem por asfixia. A lança que o soldado usou para perfurar o lado de Jesus não o matou; ele já estava morto naquele momento. Foi aquele sangue, que verteu misturado com água, e não o sangue de suas mãos e pés, que nos purificou de todos os pecados. Nos sacrifícios do Antigo Testamento era o sangue de um cordeiro morto, e não apenas ferido, que era levado para dentro do santuário para fazer expiação pelos pecados.

Por isso Pilatos ficou admirado de sua morte ter ocorrido antes do previsto. Portanto, todos esses textos e documentários que você vê por aí tentando explicar a morte de Jesus do ponto de vista clínico não passam de uma grande bobagem. Ele não morreu por exaustão, nem por edema pulmonar, nem por infecção generalizada causada pelos ferimentos ou pela lança dos soldados. Jesus entregou sua vida.

Mas isto não isenta os que o entregaram à morte de sua responsabilidade. Do ponto de vista judicial, não é o instrumento causador da morte, mas a intenção de matar, que é levada em conta. É por isso que um homicida jamais poderia alegar que o que matou a vítima foi a bala, não ele. Os judeus não poderiam alegar que estavam isentos da responsabilidade de matar Jesus, já que não o mataram de fato por ele ter entregado sua vida.

Mais uma vez, se Jesus não tivesse entregado sua vida ele não teria morrido, o que equivale dizer que ele continuaria vivo até hoje. Porém, como já disse, este pensamento é absurdo, não por sua impossibilidade de morrer de causas naturais ou exteriores, mas por ele ter vindo ao mundo com a missão específica de morrer.

sábado, 16 de junho de 2012

O que podemos pensar do discipulado e igrejas em celulas?



Voce ja se perguntou se Jesus manteve vínculos de discipulado e se desde o início havia hierarquia para coordenação das tarefas em geral.

Uma coisa é o ministério de Jesus enquanto estava no mundo, outra bem diferente é a época da Igreja, que começa em Atos 2. A relação de Jesus com seus discípulos não era a mesma que ele tem com a Igreja hoje. Nos evangelhos nós o vemos na condição do Messias esperado tendo um relacionamento com o remanescente judeu que o aguardava.



Por isso encontramos nos evangelhos coisas como adoração no templo de Jerusalém, oferendas que os curados por Jesus deviam fazer, obediência ao clero judeu, dízimo, e até mesmo a limitação do ministério que era voltado apenas aos judeus (a mulher gentia não se importou de ficar com as migalhas do que era exclusivo dos filhos).

Nos evangelhos, a Igreja ainda é uma promessa futura ("Edificarei minha igreja..."), portanto não espere achar ali a doutrina dos apóstolos dirigida à Igreja, que é o povo de Deus escolhido antes da fundação do mundo. O mistério (segredo) que esteve oculto por séculos só seria revelado a Paulo, portanto, apesar da Igreja ter sido fundada no dia de Pentecostes em Atos 2, nem mesmo os apóstolos e outros convertidos sabiam exatamente o que era aquilo que Deus estava fazendo. Ignorando que a Igreja não tinha nada a ver com Israel eles continuaram se reunindo no Templo de Jerusalém por algum tempo.

Após ser rejeitado pelos judeus, não apenas em vida, mas depois de sua morte e ressurreição, o Senhor passa a ter um relacionamento diferente com seu povo agora que é a Igreja. Aquilo que é específico para nós hoje você encontra nas epístolas, não nos evangelhos ou nos primeiros capítulos de Atos.

Segundo alguns, havia uma hierarquia porque "Felipe comandava Jerusalém, Paulo outras regiões..."

Nosso Deus é um Deus de ordem, por isso encontramos nas epístolas bispos (anciãos) e diáconos. Os primeiros incumbidos de supervisionar o rebanho de Deus e os outros de cuidar das tarefas mais mundanas, como a distribuição da provisão para os irmãos necessitados. Não se trata de dons, mas de ofícios.



E quanto aos  supostos vínculos de discipulado entre Paulo, Timóteo e Barnabé, e se este tinha sido instruído a fazer discípulos também, acredito que se aplica aí o velho ditado: "Para o martelo tudo tem cara de prego". Por você seguir uma doutrina de igrejas em células que coloca uma grande ênfase no discipulado, existe o risco de querer enxergar tudo através dessa lente e acabar perdendo de vista o que é realmente importante. Por exemplo, preste atencao na pergunta a seguir.  "Como fazer discípulos sem uma estrutura denominacional como base de fidelidade, cobertura e prestação de contas?"
Voce percebera que a pergunta acima, normalmente sao feitas por pessoas que ja estao condicionadas por esse sistema congregacional corrompido e sem base biblica!
Se formos para a Palavra de Deus, vamos encontrar que "discípulo" significa simplesmente aprendiz, e que o discípulo perfeito é o próprio Jesus: Is 50:4 "O Senhor Deus me deu a língua dos instruídos para que eu saiba sustentar com uma palavra o que está cansado; ele desperta-me todas as manhãs; desperta-me o ouvido para que eu ouça como discípulo".

Nos evangelhos encontro que os fariseus tinham discípulos (Mt 22:16; Mc 2:18), João Batista tinha discípulos (Mt 9:14; Lc 5:33; Jo 3:25) e Jesus tinha discípulos, alguns deles chamados de apóstolos. Outros também eram chamados de discípulos de Jesus (Jo 6:66), apesar de podermos colocar em dúvida se eram reais ou não. Portanto, além de "aprendiz" discípulo também tem o significado de "seguidor".

Aos judeus que ouviam a palavra de Jesus, ele exortava:

Jo 8:31 "Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente soismeus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

Tentei encontrar algum outro tipo de discípulo além dos discípulos dos fariseus, de João Batista e de Jesus, e só encontrei discípulos de homens em Atos 20:30, mas neste caso discípulos de hereges: At 20:30 "E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si".

Posso estar enganado, mas em todas as outras passagens me pareceu que a palavra "discípulos" têm sempre o significado de "discípulos do Senhor" como em Atos 9:1, e não de discípulos de outros discípulos, como se existisse uma pirâmide ou cadeia de comando na Igreja. Você pode me indicar alguma passagem que fale de alguém sendo formalmente chamado de discípulo de Paulo ou de Pedro? Eu não achei.

Eu sei que há alguns grupos de cristãos hoje que colocam ênfase no discipulado, criando uma espécie de pirâmide à semelhança de organizações de marketing multinível. Nessas pirâmides há discípulos de discípulos numa cadeia de submissão do aprendiz para com seu mestre, mas será que o Senhor ensinou isso? Veja esta passagem:

Mt 10:24 Não é o discípulo mais do que o mestre, nem é o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo ser como seu senhor.

Aparentemente o Senhor está mostrando que o exemplo para o discípulo é seu mestre, e isso podia valer no caso dos fariseus e seus discípulos, e de João Batista e seus discípulos. Mas será que algum cristão quer ser menos do que discípulo de Cristo? Quero dizer, será que somos exortados a sermos discípulos de homens?

É certo que encontramos a exortação para ensinarmos pessoas que possam ensinar outras pessoas, como Paulo diz a Timóteo em 2 Tm 2:2, mas não encontro esse tipo de vínculo que costumamos ver em alguns grupos de cristãos que adotam um tipo de discipulado sistemático nas chamadas "igrejas em células". "E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros" refere-se tão somente ao ensino, não a um vínculo no qual o discipulador detém algum tipo de controle sobre seu aprendiz, ou este tenha algum tipo de obrigação de seguir o outro.

Embora possamos usar aí a designação de "aprendiz" para aquele que é objeto do ensino, não há qualquer admoestação no sentido de criar seguidores da pessoa que ensina (ao qual algumas denominações costumam dar o nome de "discipulador"), como é o caso dos hereges de Atos 20:30. Ensinamos pessoas a serem seguidoras (discípulos) de Jesus, não de nós mesmos ou de outros homens.

Alguns usam Atos 9:26-27 como argumento a favor do discipulado de homens, como se ali Saulo estivesse provando ser discípulo de Barnabé, mas na verdade a palavra "discípulo" ali refere-se a Cristo. Barnabé simplesmente o ajuda a entender certas coisas como fizeram Priscila e Aquila com Apolo em Atos 18:26.

Já vi também alguns se referindo ao fato de Barnabé buscar Paulo em At 11:25-26 como se fosse prova de algum tipo de vínculo de sujeição de Paulo para com Barnabé, mas tudo indica que é o contrário: Barnabé simplesmente reconhece as limitações do dom que Deus lhe deu, que é o de pastor conforme vemos no versículo 24, e vai em busca de alguém com o dom de mestre, o próprio Paulo, para ajudá-lo no trabalho de ensinar a recém formada assembléia de Antioquia.

Não devemos nos esquecer de que muito do que Paulo aprendeu ele recebeu do próprio Senhor, e não de outros discípulos do Senhor, em especial a revelação do que era a Igreja.

Portanto, a  pergunta "como fazer discípulos sem uma estrutura denominacional" tem um problema já no conceito do que é um discípulo, visto que em nenhum lugar você encontrará a palavra atribuída a um relacionamento entre um cristão e o que lhe ensina, exceto no caso dos hereges de Atos 20. Mas certamente aquilo não é o exemplo que queremos seguir. Ou será que você pode me apontar um versículo que confirme a idéia de uma pirâmide de discipulado?

Quando encontramos pessoas que ensinam querendo exercer algum tipo de senhorio sobre os que aprendem temos um problema sério. A Palavra diz, a respeito dos anciãos ou bispos, e não de "discipuladores":

1 Pe 5:2 apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. 

Veja que é uma função de apascentar, cuidar e servir de exemplo, não de dominar.

É bom sempre lembrar que cada cristão está diretamente ligado à cabeça do corpo, que é Cristo, e não a algum outro membro do corpo que esteja em uma posição intermediária. Essa história de "igrejas em células" e "discipulado" me parece mais uma forma velada de clericalismo, algo como os Nicolaítas de Ap 2, algo que o Senhor diz odiar. Em grego, "nico" significa "conquistar" ou "dominar sobre", e "laitan" refere-se ao povo ou leigos. Juntando tudo temos "nicolaítas" ou "conquistadores do povo ou dos leigos".

Quer um conselho? Fuja de qualquer doutrina ou sistema clerical ou de pirâmide de comando. O que é bom para a Amway não é bom para a Igreja de Deus.

"...porque sois discípulos de Cristo" Mc 9:41



Agora preste muita atencao em  Atos 9:25 que, em algumas versões traz "seus discípulos", como se referindo a discípulos de Paulo, não apenas do Senhor.

Almeida Corrigida: Ats 9:25 "tomando-o de noite os discípulos, o desceram, dentro de um cesto, pelo muro".

Nova Versão Internacional: Ats 9:25 "Mas os seus discípulos o levaram de noite e o fizeram descer num cesto, através de uma abertura na muralha".

As versões que tenho aqui, inclusive duas literais em inglês (traduzidas do grego palavra por palavra), não fazem referência a serem discípulos de Paulo, mas falam simplesmente "discípulos". O capítulo desde o começo parece indicar que sejam discípulos do Senhor:

Ats 9:1 E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor...
Ats 9:10 E havia em Damasco um certo discípulo chamado Ananias. 
Ats 9:19 E esteve Saulo alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco. 
Ats 9:25 tomando-o de noite os discípulos, o desceram...
Ats 9:26 ...procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo.
Ats 9:36 E havia em Jope uma discípula chamada Tabita...

É muito improvável que no versículo 25 esteja falando de discípulos de Paulo, mas há discussões em torno do versículo porque uns manuscritos dizem uma coisa e outros dizem outra. A diferença no grego parece ser bem sutil (não sei grego) e não existe um consenso quanto a qual manuscrito possa ter sido alterado.

 Diante das dúvidas até entre os que entendem grego, seria temerário alguém fundamentar toda a doutrina do discipulado encontrada nas "igrejas em células" nesta passagem de tradução dúbia. A melhor coisa diante de tal impasse é perguntar: Uma doutrina assim traz glória para quem, para o Senhor ou para o homem? Se você ouvir pessoas dizendo "meu discípulo" isto e "meu discípulo" aquilo é melhor se perguntar se isso não representa um risco para a carne desse "discipulador".

O que significa adorar em espirito e em verdade?



O que o Senhor diz à mulher samaritana tem a ver com três grupos de pessoas: os judeus, os samaritanos e aqueles que viriam a adorar a Deus na nova ordem de coisas que estava para ser estabelecida.

"Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade". João 4:23-24

A palavra de Deus é a verdade, portanto os judeus que adoravam de acordo com a Palavra de Deus adoravam em verdade. Eles adoravam no lugar correto, que era o templo de Jerusalém, e da maneira correta, que era segundo os preceitos da Lei dada a Moisés. Quando o Senhor curava alguém, mandava que a pessoa se apresentasse aos sacerdotes e fizesse as ofertas conforme mandava a Lei, o que dá a entender que ele reconhecia, não apenas o lugar, que chamava de "casa de meu Pai", mas também a forma como a adoração era conduzida ali e até mesmo a pessoa do sacerdote como autoridade instituída por Deus.

Em Levítico 12:6 dizia que "quando forem cumpridos os dias da sua purificação por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da tenda da congregação, ao sacerdote". Quando ele nasceu, seus pais o levaram ao templo "para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos".

Lucas 2:24 não faz menção do cordeiro, provavelmente por José e Maria não terem condições para tanto (Levítico 12:8 "Mas, se em sua mão não houver recursos para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado; assim o sacerdote por ela fará expiação, e será limpa". Além disso José e Maria seguiram os outros rituais da Lei, como a circuncisão do menino Jesus e os dias de purificação de Maria por 40 dias após o parto. Resumindo, Jesus era um judeu, de família de judeus, seguindo e reconhecendo a Lei judaica e sua forma de adoração.

Até então estava valendo isso, e a própria samaritana testifica que, segundo os judeus, o lugar de adoração era Jerusalém. Que Deus havia estabelecido um único lugar para adoração, isto pode ser visto em Deuteronômio 12 antes mesmo de indicar o lugar físico, que viria a ser Jerusalém, o mesmo onde Abraão levou o seu filho para ser sacrificado, onde Salomão construiu o templo e onde Jesus foi crucificado (ainda que fora dos portões).

Os judeus adoravam, portanto, em verdade, isto é, segundo a Palavra de Deus. Porém não se pode dizer que adorassem em espírito, já que, primeiro, não tinham o Espírito Santo habitando em si e, segundo, o próprio Senhor testemunhou, citando Isaías 29:13, que aquele povo adorava a Deus com a boca, mas seu coração estava longe de Deus (Mt 15:8 e Mc 7:6).

Os samaritanos, por sua vez, não adoravam nem em espírito, nem em verdade, já que tinham inventado para si mesmos o seu jeito de adorar, o qual não era segundo a verdade encontrada na Palavra de Deus. Até o lugar era diferente, e até hoje eles adoram em Gerizim.

Mas o Senhor anunciou um tempo em que não seria mais Jerusalém (e muito menos Samaria) o lugar onde se devia adorar, mas em espírito e em verdade. Hoje um salvo por Cristo pode adorar em espírito, porém se a sua adoração não estiver de acordo com a Palavra de Deus ele não estará adorando em verdade. O único documento que temos mostrando a vontade de Deus quanto à adoração cristã são as epístolas dos apóstolos. Se voltarmos a adotar o local e as práticas judaicas do Antigo Testamento, já não estaremos adorando em verdade, pois não vemos tal coisa na adoração cristã nas epístolas.

Hoje o que se vê na cristandade é uma mescla de preceitos no Novo Testamento com práticas do Antigo Testamento, além do acréscimo de idéias estranhas a uma e outra dispensação. Não se pode dizer que um cristão que acredite que Jerusalém seja o lugar onde deve adorar esteja adorando em verdade segundo a nova ordem de coisas que o Senhor anunciou.

O mesmo se pode dizer de adorar em um local chamado de "templo". Até mesmo pelos preceitos do Antigo Testamento seria uma abominação construir um templo em qualquer lugar que não fosse Jerusalém, e pelas epístolas aprendemos que o templo agora não é um lugar de pedras, mas o conjunto dos cristãos, ou a Igreja, e o próprio crente, individualmente.

Somando tudo o que víamos na adoração judaica, como templo, clero, cantores e músicos profissionais, incenso, vestes e instrumentos cerimoniais, dízimos, altar etc., qualquer agrupamento de cristãos que inclua em sua adoração esses elementos não está adorando segundo a verdade da Palavra de Deus encontrada na doutrina dos apóstolos.

Me perguntaram sobre "o ministério da dança", e eu pergunto: pode encontrar isso na adoração da Igreja conforme é revelada na doutrina dos apóstolos? Quando não adoramos em espírito e em verdade em conformidade com a Palavra de Deus dada à Igreja, corremos o risco de recriar uma adoração judaica ou agirmos como os samaritanos. Deus não reconhece nem uma coisa, nem outra, como uma adoração em espírito e em verdade, caso contrário Jesus não teria dito, quando ainda existia uma adoração judaica: "Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" João 4:23

Como os Salmos se aplicam ao cristao?



Os Salmos são uma excelente fonte de inspiração para qualquer cristão, e fazemos bem quando os lemos. Porém é preciso entender que eles têm dois aspectos importantes: Primeiro, que foram escritos para Israel, ou seja, em uma ordem de coisas totalmente diferente daquelas que são para a Igreja, e segundo, que em grande parte eles falam dos sentimentos de Cristo.


Por isso você encontra nos Salmos coisas como o salmista pedindo a Deus o sofrimento, morte e destruição de seus inimigos, coisa que um cristão jamais pediria. Sendo cristão, você não seria capaz de fazer a oração do salmista abaixo:

Slm 71:13 Sejam confundidos e consumidos os que são adversários da minha alma; cubram-se de opróbrio e de confusão aqueles que procuram o meu mal. 

Slm 143:12 E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma; pois sou teu servo. 

Slm 139:22 Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. 

Tudo isso podia fazer sentido para um povo que tinha por esperança habitar na terra e estava cercado de inimigos humanos, como faz sentido para muitos radicais muçulmanos explodirem seus inimigos, já que boa parte dos preceitos do islamismo foram tirados do Antigo Testamento. Mas não faz sentido para aqueles que creem em Jesus, que são cidadãos do céu, e foram ensinados de outra maneira pelo próprio Senhor:

Mat 5:44 Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; 

Mat 5:40 E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; 

Joã 16:33 Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. 

Efs 6:12  Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais. 
Outro ponto é entender que os Salmos são muitas vezes a expressão dos sentimentos de Cristo. Você não poderia, honestamente, jamais afirmar o que diz o salmista nos versículos abaixo, porque você sabe muito bem que é falho e pecador:

Slm 18:21 Porque guardei os caminhos do SENHOR, e não me apartei impiamente do meu Deus. 

Slm 18:23 Também fui sincero perante ele, e me guardei da minha iniqüidade. 

Slm 119:22 Tira de sobre mim o opróbrio e o desprezo, pois guardei os teus testemunhos. 

Slm 119:93 Nunca me esquecerei dos teus preceitos; pois por eles me tens vivificado. 

Slm 119:56 Isto fiz eu, porque guardei os teus mandamentos. 

Somente o Homem perfeito poderia ter dito tais coisas, e o único Homem perfeito é Cristo. Se ler com atenção os Salmos 22, 23 e 24 (na Bíblia católica a numeração é outra) verá que todos eles falam de Cristo em sequência: primeiro o Cordeiro é morto, depois Ele aparece identificado com as ovelhas do rebanho de Deus e é ao mesmo tempo Pastor, e por fim é Senhor de toda a terra, quando vier para reinar.